O dado é de um recorte regional do estudo Future of Professionals 2026, realizado pela Thomson Reuters
Luiza Calegari
O uso de inteligência artificial (IA) por advogados já é um caminho sem volta na América Latina: ao menos 84% dos profissionais recorrem a alguma ferramenta semanalmente. O dado é de um recorte regional do estudo Future of Professionals 2026, realizado pela Thomson Reuters com profissionais do setor jurídico e obtido com exclusividade pelo Valor.
Segundo Rodrigo Hermida, vice-presidente do segmento de Legal Professionals para América Latina na Thomson Reuters, embora os dados abranjam toda a região, a realidade retratada é majoritariamente brasileira, devido à maior proporção estatística de profissionais jurídicos no país. Apesar da adoção ampla, no entanto, segundo especialistas, há gargalos de utilização que podem comprometer o trabalho das empresas.
O primeiro ponto preocupante mostrado pela pesquisa é que só 48% dos entrevistados têm acesso a ferramentas desenvolvidas especificamente para o ambiente profissional. Ao menos 34% admitiram ter usado ferramenta de IA não aprovada por suas organizações – a chamada “shadow AI”.
O principal risco dessa prática é o vazamento de dados, segundo Gustavo Artese, do Artese Advogados, especialmente porque as informações fornecidas pelo profissional sobre um determinado processo são absorvidos pelas ferramentas abertas. Ele lembra que a prática pode gerar violação ao sigilo profissional do advogado, previsto no Estatuto da Advocacia (Lei nº 8.906, de 1994).
Outro risco destacado pelo especialista é a utilização irregular de “prompt injection” – comando “escondido” incluído na peça para ser lido pela IA do tribunal ou do advogado da parte contrária dando orientações para manipular a redação de petições ou decisões.
Loyanna de Andrade Miranda Menezes, sócia-diretora executiva do Abi-Ackel Advogados, acredita que a mitigação dos riscos trazidos pelo uso da IA externa deve ser feita pelo próprio escritório. Segundo ela, os profissionais vão para as ferramentas abertas quando os sistemas internos não atendem às necessidades do dia a dia. A solução, afirma, é transformar as informações dos processos em bancos de dados, o que neutraliza a necessidade de alimentar diversas vezes a ferramenta com as mesmas informações.
Por outro lado, a possibilidade de erros segue muito presente, mesmo com os sistemas próprios. A advogada cita um estudo de pesquisadores da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, publicado no Journal of Empirical Legal Studies em 2025. O levantamento comparou três IAs jurídicas dos EUA com o GPT-4 e constatou que, embora tenham reduzido esse risco em relação ao sistema aberto (que alucinou em 43% das respostas), os sistemas jurídicos não o eliminaram, registrando níveis de alucinação de 17% a 33% das respostas.
Um dos efeitos mais insidiosos, no entanto, tem passado despercebido, segundo Gustavo Artese: o que se chama de “preguiça cognitiva” pelo uso de IA. “O texto já vem pronto, mas às vezes os argumentos gerados pela IA, apesar de corretos, não são tão relevantes para o caso específico, ou não têm relação lógica com os fatos”, afirma. “Sem revisão cuidadosa quanto ao contexto e uma cadeia de controle rigorosa, a qualidade tende a cair.”
Há ainda outro problema importante na adoção de IA pelos escritórios, que é a grande diferença entre a expectativa dos profissionais e o que as ferramentas são capazes de entregar hoje. Pelo levantamento da Thomson Reuters, 87% dos entrevistados acreditam que essa lacuna existe e 26% considerariam deixar seus escritórios nos próximos dois anos se a empresa não conseguir cobrir esse “gap”.
Os maiores afetados por essa lacuna são os profissionais no meio de carreira, ainda segundo o levantamento. Os dados são confirmados pela percepção dos especialistas. Loyanna Menezes diz perceber que a insatisfação é maior nos profissionais do chamado “back-office’, aqueles advogados, em escritórios maiores, que ficam responsáveis por questões mais práticas, como os que fazem pedidos de pagamento, pedidos de cumprimento de decisão e outras funções mais técnicas que a IA está automatizando.
“Essas movimentações estão acontecendo nessas posições, em que o advogado não estava exercendo a função de produção de conteúdo técnico”, explica. Ela estima que cerca de 40% dos profissionais de seu escritório estejam nessa categoria e que a saída encontrada foi tentar aproveitá-los em funções mais técnicas, para não perder os talentos. “Percebemos que essa posição tem que ser vista como etapa na carreira, e não como um posto a se estabelecer, porque senão não retroalimenta o próprio ativo da profissão, que é a capacidade técnica e de produção intelectual.”
Os dados da Thomson Reuters estão em linha com outra pesquisa recente conduzida no Brasil. Em julho deste ano, um levantamento feito pela Associação dos Advogados de São Paulo (AASP) mostrou que 87,4% dos advogados já utilizam a IA no trabalho e 84,3% apontam ganho de produtividade com o mecanismo. Contudo, 85,3% defendem capacitação específica e 90,3% consideram que soluções desenvolvidas especialmente para o Direito brasileiro são mais seguras e eficientes do que plataformas de uso geral.
Rodrigo Hermida, da Thomson Reuters, ressalta que os escritórios precisam internalizar a ideia de que a adoção da tecnologia não pode ser uma finalidade em si mesma. “Algumas firmas estão usando ferramentas mais genéricas porque talvez não estejam usando esse momento para pensar qual problema querem resolver com a IA, eficiência, velocidade, escala. Essa análise estratégica é importante no início, para evitar todos os problemas encontrados até agora.”
Fonte: Valor Econômico, 10 de agosto de 2026