ABF vê franchising em alta e defende parceria entre locadores e varejistas na expansão

Em apresentação no evento do Secovi-SP, Daniel Cerveira, coordenador da Comissão de Expansão e Pontos Comerciais da entidade, afirmou que o próximo ciclo de crescimento será de quem souber ler melhor o consumidor e os mercados

O próximo ciclo de expansão do varejo não será de quem abrir mais lojas, e sim de quem souber ler melhor o consumidor, escolher melhor os mercados, testar formatos e construir operações rentáveis e sustentáveis. A avaliação é de Daniel Cerveira, coordenador da Comissão de Expansão e Pontos Comerciais da ABF (Associação Brasileira de Franchising), que apresentou um panorama de varejo e expansão no evento “O Varejo e o Mercado Imobiliário na Nova Economia”, promovido pelo Secovi-SP nesta quinta-feira (15), no Centro de Convenções Milenium, em São Paulo.

Advogado da Cerveira Advogados, escritório especializado em varejo com 53 anos de atuação, Daniel também é advogado do Sindilojas. Ele destacou a representatividade da ABF e ofereceu aproximação entre as entidades. “Vim aqui representando a ABF, a Associação Brasileira de Franchising, uma entidade bem consolidada no mercado, com grande representatividade. Participo de outras entidades e sou advogado do Sindilojas há muitos anos. Se o Secovi quiser fazer alguma parceria com o Sindilojas, podemos aproximar as entidades. As portas da ABF também estão abertas para o Secovi, para estreitarmos essa parceria e fomentarmos bons negócios”, afirmou.

Segundo ele, a comissão que coordena atua com eventos, networking e criação de conteúdo. “Já fizemos eventos no ano passado e neste ano em parceria com shoppings, com empresas que estruturam strip malls e com concessionárias de parques, como o do Ibirapuera. Temos uma ampla gama de opções de pontos comerciais, para estreitar parcerias e gerar bons negócios”, disse.

Ao tratar da expansão, Daniel defendeu uma relação mais próxima entre locadores e lojistas. “Expandir não é mais só abrir lojas: é saber onde abrir a próxima unidade, onde está a oportunidade de crescimento, e hoje, com a interligação dos canais de venda, o omnichannel, é fundamental ter uma visão de parceria. Sei que há um contrato, que há o locador e o inquilino, mas precisamos subir um pouco e ter essa visão. Com o e-commerce e as mudanças no perfil de consumo, é fundamental que o proprietário, o parceiro, o shopping tenha ciência de que precisa facilitar a vida do varejista, seja para ele usar a loja como hub, como ponto de distribuição, seja para trazer fluxo. Às vezes é preciso pôr alguns parceiros para viabilizar isso. Hoje o varejo é muito mais que só um contrato”, afirmou.

Com base em apresentação preparada pela ABF, ele descreveu o perfil do consumidor atual. “O consumidor é mais seletivo: o preço importa, mas confiança, experiência e valor também. É híbrido: a loja é loja, app, marketplace, rede social, WhatsApp, experiência, tudo no mesmo lugar e em todos os lugares. É imediato, com menos tolerância a atrito e mais expectativa de rapidez e personalização. E é conectado: descobre, compara, recomenda e abandona marcas em tempo real”, disse. Para ele, a loja física também é mídia, relacionamento e comunidade. “Vi recentemente, aqui no centro, uma iniciativa de restaurar cinemas antigos para que sejam também um centro para os cinéfilos, com café, exposição e encontro das pessoas além do filme. Não é só o cinema, é cultura”, exemplificou.

O coordenador apresentou números do setor. “O faturamento do franchising no primeiro semestre atingiu R$ 149 bilhões, com crescimento de 9,7%. No segundo trimestre, o faturamento foi de R$ 73 bilhões, mais um crescimento, de 9%. Mesmo em ambiente de crédito mais restrito e juros elevados, o setor manteve expansão, combinando marca, empreendedor local, tecnologia e capacidade de replicação”, afirmou. Segundo ele, o modelo permite crescer com capital de terceiros. “Sou meio suspeito, porque trabalho nessa área, mas a franquia é uma estratégia de expansão que, além de fortalecer o atendimento no ponto de venda, permite expandir com o capital de terceiros. Isso é sensacional”, disse.

Daniel destacou também a capilaridade do modelo. “Quase 70% dos municípios brasileiros já têm alguma franquia instalada. A interiorização ganha relevância, há novos polos, inteligência de mercado e adaptação do mix e do formato ao perfil local”, afirmou.

Sobre a distribuição dos pontos, citou a pesquisa da ABF. “Hoje 60% das franquias estão localizadas em ruas. Em São Paulo vemos essa renovação das locações: derrubam-se as casas, sobem os prédios e abrem-se lojas. É um mercado muito ativo. Os shoppings respondem por 17%, bem menos que a loja de rua”, disse. Segundo ele, desde 2020, quando começou a ser medida a localização das unidades, a participação da rua passou de 63% para 60%, uma mudança pequena, enquanto a dos shoppings caiu de 22% para 17%. “Nos últimos anos vimos um crescimento muito grande do número de shoppings, e ainda há alguns greenfields, mas não tantos”, observou.

O advogado disse acreditar na valorização dos imóveis comerciais. “Eu sempre falo que as lojas físicas nunca vão morrer, na minha visão. Como estamos falando de um bem escasso, cada vez mais as propriedades vão valer mais, ainda mais nos grandes centros. Essa ideia de que vão desvalorizar, eu acho que é justamente ao contrário. Se olharmos o recorde de vendas que o Celso trouxe, com uma taxa de juros nesse patamar, o valor está represado. Quando os juros caírem, acho que os valores dos imóveis vão subir exponencialmente. É a visão que eu tenho. Não sou economista, mas estudei um pouquinho e acho que há base para pensarmos dessa forma”, declarou, em referência à fala de Celso Petrucci, diretor de Economia do Secovi-SP, na abertura do evento.

Ao abordar a legislação, Daniel falou sobre a sublocação nas redes de franquia. “Em algumas redes, como as de colchão, o franqueador loca o imóvel e subloca ao franqueado. A lei de franquias mudou a partir de 2019: mesmo locando integralmente o imóvel, o sublocador pode entrar com a ação renovatória. Isso não era possível antigamente, quando, havendo sublocação total, a renovatória caberia ao inquilino. Muitas vezes o franqueado só fica no balcão, só vende, e toda a gestão financeira, de estoque, a seleção do ponto e a negociação ficam com o franqueador”, explicou.

O coordenador também se posicionou sobre a Lei do Inquilinato, tema tratado por Adriano Sartori, vice-presidente de Gestão Patrimonial e Locação do Secovi-SP. “Temos algumas iniciativas legislativas, e podemos conversar e tentar convergir no aperfeiçoamento da lei de locações. Só não pode tirar a ação renovatória, porque, para o varejo, aí complica. Já houve iniciativas com esse objetivo, e a coisa realmente complica. É algo que existe há tantos anos, uma criação da época de Getúlio Vargas, da antiga Lei de Luvas”, disse.

Daniel explicou o que define uma franquia e convidou os participantes a conhecer o setor. “A franquia é a marca, o know-how, que passa pelos treinamentos, o capital e o franqueado. Na ABF temos o curso ‘Entendendo Franchising’, cursos de capacitação mais aprofundados, eventos e workshops. Os pilares da franquia são o contratual, o de relacionamento e o de produto e formato”, afirmou. Ele citou ainda formatos como flagship, loja tradicional, compacta, quiosque, store in store e home based.

Na avaliação do coordenador, a expansão ficou mais complexa. “É preciso aferir dados, ter tecnologia, disciplina e a interligação dos canais. O próximo ciclo de expansão não será de quem vai abrir mais, e sim de quem souber ler melhor o consumidor, escolher melhor os mercados, testar formatos e construir operações rentáveis e sustentáveis”, declarou. Ao encerrar, indicou um e-book preparado pela ABF e colocou a entidade à disposição. “Quem quiser se aproximar da ABF, o próprio Secovi, estamos à disposição, de portas abertas”, afirmou.

Fonte: Secovi-SP, 15 de outubro de 2026

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