Daniel Cerveira destaca a importância de entender o consumidor para o crescimento do varejo no cenário atual.
O futuro do varejo está se delineando de forma distinta, e a chave para esse novo ciclo está na capacidade de compreender profundamente o consumidor e os mercados. Essa afirmação foi feita por Daniel Cerveira, coordenador da Comissão de Expansão e Pontos Comerciais da ABF, durante o evento “O Varejo e o Mercado Imobiliário na Nova Economia”, promovido pelo Secovi-SP. Cerveira apresentou uma análise abrangente sobre o crescimento do franchising e a urgência de colaboração entre locadores e lojistas, um tema que ressoa em um cenário de mudanças constantes nas dinâmicas de consumo.
O novo ciclo de expansão do varejo
Com a evolução do mercado, Cerveira destacou que a expansão no setor varejista não será mais feita apenas pela abertura de novas lojas, mas pela habilidade em interpretar as necessidades dos consumidores e selecionar os melhores mercados para atuação. Ele ressalta que é crucial testar diferentes formatos de lojas e construir operações que sejam não apenas rentáveis, mas também sustentáveis. “Expandir não é mais apenas abrir lojas: é saber onde abrir a próxima unidade e onde está a oportunidade de crescimento”, enfatizou Cerveira.
A interconexão dos canais de venda, ou seja, a abordagem omnichannel, emerge como uma estratégia fundamental. Isso significa que locadores e lojistas devem colaborar para maximizar o potencial de cada unidade, facilitando a utilização da loja não apenas como um ponto de venda, mas também como um centro de distribuição e atração de consumidores. Essa parceria se torna vital em um ambiente onde a experiência do cliente é cada vez mais valorizada.
O papel da tecnologia e do consumidor atual
Durante sua apresentação, Cerveira destacou o perfil do consumidor contemporâneo, que se tornou mais exigente e seletivo. “O consumidor é mais seletivo: o preço é importante, mas confiança, experiência e valor também contam muito”, observou. Ele descreveu um consumidor híbrido, que interage com lojas físicas, aplicativos, marketplaces e redes sociais de maneira integrada, o que exige rapidez e personalização nas experiências de compra. Além disso, a loja física precisa ser vista como um espaço multifuncional. “A loja física também é mídia, relacionamento e comunidade”, afirmou Cerveira, exemplificando com iniciativas que transformam espaços comerciais em centros culturais, como a revitalização de cinemas antigos.
Resultados positivos do franchising
O desempenho do setor de franchising foi um dos pontos altos da apresentação. Cerveira apresentou dados que demonstram um crescimento robusto, com o faturamento do franchising atingindo R$ 149 bilhões no primeiro semestre, resultando em um aumento de 9,7% em comparação ao ano anterior. No segundo trimestre, o faturamento foi de R$ 73 bilhões, com um crescimento adicional de 9%, mesmo em um cenário de crédito restrito e altas taxas de juros. Essa resiliência do setor é um indicativo da sua robustez e adaptabilidade.
Ele ressaltou que o modelo de franquia é vantajoso porque permite a expansão utilizando capital de terceiros, o que é um diferencial para muitos empresários. “A franquia é uma estratégia de expansão que permite crescer com o capital de terceiros, fortalecendo o atendimento no ponto de venda”, disse Cerveira, destacando que essa característica é especialmente atrativa em tempos de incerteza econômica.
Capilaridade e interiorização das franquias
Outro aspecto abordado por Cerveira foi a presença das franquias em diversas localidades do Brasil. Ele mencionou que aproximadamente 70% dos municípios brasileiros já possuem franquias instaladas, o que demonstra que a interiorização está se consolidando. “A interiorização ganha relevância, e há novos polos surgindo, além da adaptação do mix de produtos ao perfil local”, afirmou. Isso sugere que os empresários estão cada vez mais atentos às peculiaridades regionais e adaptando suas ofertas para melhor atender à demanda.
Sobre a localização das unidades, Cerveira revelou que 60% das franquias estão situadas em ruas, enquanto apenas 17% estão em shoppings. Ele observou que, desde 2020, a participação das lojas de rua caiu levemente de 63% para 60%, enquanto a dos shoppings diminuiu de 22% para 17%. Essa mudança pode indicar uma busca crescente por espaços mais acessíveis e com maior visibilidade, adaptando-se ao novo comportamento do consumidor.
Perspectivas para o mercado imobiliário
O advogado expressou otimismo em relação à valorização dos imóveis comerciais, particularmente em grandes centros urbanos. “As lojas físicas nunca vão morrer. Cada vez mais, as propriedades vão valer mais, principalmente em áreas urbanas”, afirmou. Ele acredita que, com a queda das taxas de juros, os valores dos imóveis poderão subir significativamente, refletindo a demanda constante por espaços comerciais bem localizados.
Cerveira também discutiu a legislação relacionada à sublocação nas redes de franquia, abordando as mudanças na lei de franquias em 2019, que trouxeram novas possibilidades para os franqueados, permitindo que eles ingressem com ações renovatórias, mesmo quando o imóvel é sublocado. Essa alteração representa uma mudança importante nas relações entre franqueadores e franqueados, proporcionando maior segurança jurídica para os envolvidos.
Importância da legislação no franchising
Outra questão relevante abordada foi a Lei do Inquilinato e as iniciativas legislativas relacionadas. Cerveira enfatizou a necessidade de diálogo para aprimorar a legislação de locações, destacando que a proteção da ação renovatória é crucial para o varejo. “Já houve iniciativas que tentaram eliminar essa proteção, e isso complicaria a situação para os varejistas”, alertou. O fortalecimento de um ambiente legal favorável é essencial para garantir a estabilidade e a continuidade das operações comerciais.
Impactos para os investidores e administradores
A transformação no varejo e o crescimento do franchising têm implicações diretas para investidores e administradores. Para quem investe, o cenário atual exige uma análise cuidadosa das oportunidades. A interiorização das franquias significa que há novas áreas emergentes onde o potencial de retorno pode ser significativo, enquanto a adaptação às demandas locais pode ser uma estratégia lucrativa.
Administradores de lojas e franquias devem se preparar para um ambiente mais colaborativo, onde a relação com locadores será ainda mais crucial. A capacidade de inovar, oferecer experiências diferenciadas e se adaptar rapidamente às mudanças do mercado será fundamental para a sobrevivência e o crescimento. A tecnologia será um aliado nesse processo, pois permitirá uma gestão mais eficiente e uma personalização maior na experiência do consumidor.
Desafios e oportunidades no futuro
À medida que o varejo evolui, os desafios também se intensificam. A necessidade de investimento em tecnologia e na capacitação de equipes será vital. Além disso, a crescente concorrência entre canais de venda exige que os empresários estejam sempre um passo à frente, buscando inovações e melhorias contínuas em seus serviços. A integração entre o online e o offline não é mais opcional; é uma exigência do consumidor moderno.
Por outro lado, as oportunidades são vastas. Com a recuperação econômica e a flexibilização das taxas de juros, o mercado imobiliário pode se aquecer, e a demanda por franquias pode crescer. Empresas que se adaptarem rapidamente às novas realidades do mercado estarão melhor posicionadas para aproveitar esse crescimento.
Conclusão: O futuro do varejo e do franchising
Concluindo sua apresentação, Cerveira convidou os participantes a conhecer melhor o setor de franchising e os recursos oferecidos pela ABF, como cursos de capacitação e workshops. Ele ressaltou que o próximo ciclo de expansão do varejo será baseado na capacidade de entender o consumidor e escolher os melhores mercados, testando formatos de negócio que sejam sustentáveis e lucrativos. “Estamos à disposição para estreitar parcerias e fomentar bons negócios”, finalizou. A colaboração entre locadores e lojistas, aliada à adaptação às novas demandas do consumidor, será fundamental para o sucesso no cenário do varejo contemporâneo.
Fonte: Habita em Pauta, 15 de outubro de 2026